Em 1848, na Nova Inglaterra, a vida de Phineas Gage foi tragicamente alterada. Uma explosão de dinamite lançou uma barra de ferro de aproximadamente 3 cm de espessura, que atravessou o cérebro do ferroviário. Milagrosamente, o jovem sobreviveu. Mas o caso Phineas Gage ocupou os neurologistas ainda por outro motivo: antes do acidente, Gage era tido como calmo, bom e sociável. Após a lesão em seu lobo frontal, passou a ser barulhento, briguento e inescrupuloso. Para os amigos, tornou-se um estranho. Para os cientistas, a prova viva de que cérebro e personalidade estão indissociavelmente ligados.

A sra. B encontrava-se em estado de desespero, quando se decidiu por um tratamento terapêutico: devido a sérias situações de fobia, não conseguia mais sair de casa; aglomerações humanas lhe causavam ataques de pânico. Por isso, havia meses abandonara o emprego.

Além disso, sofria de crises de enxaqueca e de distúrbios alimentares e do sono. Era-lhe praticamente impossível suportar contato físico com o marido; não obstante, entrava em pânico quando ele pretendia viajar. No decorrer da psicoterapia confessou o quanto frigidez e infertilidade a deprimiam.

No decorrer do tratamento, B aos poucos se lembrava das várias experiências ruins da infância, começando a entender e elaborar as emoções e fantasias a elas associadas. Ela superou a fobia, encontrou emprego e recobrou a vitalidade. Enxaqueca e distúrbios do sono apareciam agora apenas raramente. Após o fim do tratamento, seu sonho de ter filhos se realizou.

O caso mostra como experiências traumáticas na primeira infância influenciam nosso modo de pensar, de sentir e de agir hoje, podendo até mesmo nos deixar doentes.

Estes dois casos demonstram como o cérebro e sua estrutura, e como as informações recebidas e arquivadas no cérebro na primeira infância, produzem reações emocionais.

A questão é: pode a pesquisa cerebral nos mostrar como o cérebro “reaprende” e abandona um comportamento inadequado?

Por razões éticas, não seria possível examinar pessoas com problemas psíquicos com o recurso de imagens durante sessões terapêuticas. Por isso, não saberemos nunca que processos ocorrem no cérebro durante determinada situação terapêutica. Portanto, dependemos de estudos científicos de base com que possamos comparar nossos modelos clínicos-terapêuticos.

Estudos recentes da neurociência e da biologia evolutiva comprovam, que o cérebro humano não funciona como um computador. Na cabeça não existem arquivos fixos, nos quais seriam armazenados conhecimentos ou sensações de situações anteriores na memória de longo prazo, podendo ser ativados a partir de lá. Nos novos modelos, considera-se que o cérebro deve se adaptar a um ambiente em constante mudança. Para isso, utilizamos também conhecimentos já existentes, que, no entanto, seriam constantemente “re-escritos”, sendo adaptados à respectiva situação. Se o cérebro funcionasse como um computador, não conseguiríamos reconhecer os célebres acordes iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven tocados no piano pelo vizinho, pois o instrumento não produz os mesmos sinais acústicos que uma orquestra sinfônica. Mas aparentemente , o cérebro é capaz de reconhecer de modo ativo e criativo a analogia entre uma percepção atual e outra antiga. Essa capacidade básica já pode ser observada em bebês. Uma criança de oito meses está sentada diante de uma mesa, sobre a qual estão maçãs e jornais. Ela leva tudo instintivamente à boca. Pouco tempo depois, deixa o papel de lado e pega apenas as maçãs. Duas horas depois, são colocadas na frente dela peras e uma revista. Agora, ela pega as peras, ignorando a revista.

Os processos que transcorrem de forma coordenada entre olho, mão e boca parecem possibilitar à criança, apesar de ela ainda não falar, a formação das chamadas categorias ( frutas saborosas versus objetos de papel ). Permitem-lhe aplicar de forma criativa o conhecimento adquirido no futuro, não apenas a situações idênticas mas também, a outras análogas.

O computador não consegue fazer estas analogias, apenas registra informações. Nossa capacidade associativa, cria a nossa complexidade e potência. Quando empreendemos recursos para alcançar mudanças no processo terapêutico, trabalhamos com associações.

Usamos símbolos,contamos histórias, indicamos filmes, ensinamos técnicas de respiração e imaginação, tudo com o objetivo de associar a situação problema novas opções. O cérebro como fonte de inteligência superior, aprende com modelos.

ASS ROSALIA

 

Rosalia Schwark
Psicóloga Especialista em Neurociência
Criadora do Método Movimento Perfeito

 

 

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