Nunca conseguimos pensar na morte com naturalidade, ainda que ela seja a maior de todas as certezas.
Nunca conseguimos pensar em términos sem o medo, ainda que saibamos que tudo é temporário.
Tudo são ciclos inevitáveis da vida, todos nós passaremos por processos de luto pelas pequenas perdas do dia-a-dia e pelas perdas trágicas, que abalam nossas estruturas emocionais e valores de vida.


É importante lembrarmos, que são momentos de grandes transmutações, são fatos que demostram a nossa necessidade de mudar de forma, tanto a nível pessoal, quanto no âmbito social. Em meio a discussões sobre causas e responsáveis pelo incêndio na boate em Santa Maria, está um grande desafio para todos nós, transformar a dor profunda numa mudança de postura diante da vida.

E para isto, o processo de luto, não apenas das pessoas diretamente envolvidas, mas o luto de todos nós, será necessário para que possamos transformar a nossa dor, revolta e tristeza em um processo de revelação. Para que a vida possa nos revelar, o quanto, apesar de tudo, somos capazes de nos reconstruir, capazes de sentir compaixão, de perdoar, de nos reinventar e capazes de sublimar a dor e criar novos caminhos, ainda mais sublimes e perfeitos para aqueles que vierem depois de nós.

No início, não acreditamos, o sentimento de que tudo é irreal toma conta, alguns acontecimentos estão muito além de nossa capacidade de representação , assim, essa é a primeira reação em relação a uma perda, choque e irrealidade, não é possível que aquilo esteja acontecendo. A negação é o nosso primeiro campo de força criado para nos proteger. Barreiras naturais estão sendo erguidas lá dentro, para nos preparar para o trabalho duro de sofrer e buscar uma adaptação à vida com aquela perda.

Depois vem o isolamento, a raiva acompanhada de incansáveis questionamentos e especulações, culpa e a impotência, o reconhecimento que não posso mudar a situação. Neste momento , o processo de luto tem duas finalizações possíveis, a traumática e a transformativa. A traumática não existe a superação e os traços de evidência são a revolta e o recalque. Na transformativa , somos desafiados ao extremo, perdemos o controle, ficamos confusos,as estruturas antigas sofrem rupturas e nasce um novo eu, mais expandido, mais profundo , mais intenso com aquela marca da vida, mais sábio com uma nova visão e novos propósitos,o sofrimento produziu um processo de mudança pessoal, dentro houve uma revolução ,mas somos resgatados e estamos novamente aptos para retornar a dança da vida, agora com mais recursos.

As crenças que temos sobre a morte tem tremenda influencia sobre a qualidade de nossa vida. A maioria pensa na morte como término, na verdade é a complementação de um ciclo, não há morte na natureza, no universo, tudo que vimos está em eterna complementação. Tudo são passagens necessárias para nos complementar nesta eterna jornada da vida.

Não podemos perder o que não podemos perder. Nunca perderemos a vida, nos desdobraremos em diferentes formas pela eternidade. Tenho esta crença não apenas por fé, mas por estudar os princípios da física que revela a impossibilidade do término de uma matéria.

Finalizo o meu texto com a revelação de Virginia Woolf : ” Qual é o sentido da vida? A grande revelação nunca vem. Em vez disso, há pequenos milagres diários, iluminações, fósforos sendo acessos inesperadamente na escuridão”.

 

ASS ROSALIA

 

Rosalia Schwark
Psicóloga Especialista em Neurociência
Criadora do Método Movimento Perfeito

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